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Emergentes abrem nicho de crédito para a educação

Jornal Hoje em Dia, 13.janeiro.2008

Com a demanda por bens de consumo atendida, a nova classe média busca elevar seu status com aprimoramento do nível educacional, que pode representar mais um degrau de ascensão. Como a rede privada de ensino superior cresceu muito nos últimos anos, a oferta de crédito educativo deixou de ser exclusiva do Estado e já atrai empresas privadas. A Ideal Invest, empresa privada pioneira na oferta de crédito educativo, entrou no mercado brasileiro há um ano com o Pravaler, que financia as mensalidades.

O idealizador da empresa, Oliver Mizne, lembra que, há dez anos, o Brasil tinha 700 instituições de ensino superior, com 300 mil vagas para calouros. Hoje, são 2 mil escolas, com 1,4 milhão de vagas para calouros. De acordo com Mizne, a alta da oferta de bancos na Universidade foi a primeira onda da evolução do setor. A primeira onda deu acesso à vaga, mas pouca gente conseguia terminar o curso, diz Mizne, ao lembrar que o valor das mensalidades era impeditivo para muitos.

A proposta da Ideal Invest é financiar o curso para o aluno de forma que as prestações correspondam à metade da mensalidade. Assim, um curso de quatro anos de duração seria pago em oito anos pelo estudante, que firma contratos a cada semestre.

Conforme Mizne, a demanda por financiamento é crescente. A Ideal Invest contabilizou mil contratos na primeira leva de alunos, há um ano, número que saltou para 11 mil em julho. Após os vestibulares deste início de ano, a empresa espera firmar 60 mil novos contratos. A demanda está crescendo absurdamente , diz.

Sintomaticamente, a maioria dos alunos que fecharam contratos com a Ideal Invest têm renda familiar de até R$ 2 mil, o que confirma o desejo de ascensão da classe média emergente. O tema da educação é que, agora, você pode , diz Mizne, que garante que idealizou o negócio da Ideal Invest para ajudar estudantes de menor renda a concluir os estudos. Uma boa intenção que já rendeu uma carteira de crédito de R$ 350 milhões e que pode chegar a R$ 1 bilhão até 2010, pelas metas da empresa. De acordo com Mizne, o financiamento privado à educação tende a crescer. Quanto mais crédito que viabilize a educação, melhor para o PIB , resume, ao lembrar que a Coréia do Sul investiu maciçamente em educação e deu salto de desenvolvimento em dez anos.

Fernando Gaiger, pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), alerta, porém, que o aumento de gastos das famílias em ascensão com educação ou saúde pode neutralizar o ganho de renda obtido. Para ele, o ideal seria o Governo aumentar a provisão de recursos públicos para estes setores, de forma a assegurar o aumento de renda.

Gaiger aponta como caminhos os programas governamentais do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), que substituiu o antigo Crédito Educativo, e o Prouni, que concede bolsas de estudo a estudantes carentes. Ambos estão em expansão. Em dezembro, o Fies registrou o recorde de 500 mil contrações. O Prouni, por sua vez, criado em 2005, liberou 112 mil bolsas em 1.142 instituições no primeiro ano. Até 2010, a meta oficial é liberar 400 mil novas bolsas.

Para o professor da FGV Management, Marcelo Peruzzo, para que a classe emergente consiga sustentar sua promoção econômica, é preciso, mais que valorizar o ter (a compra de bens de consumo), investir no ser, focado na educação e formação profissional. Segundo ele, 63% da elite possuem, pelo menos, um título de especialização, índice que cai para 57,14% na classe média tradicional. Mas ressalta que o ganho de renda dos emergentes pode ser a ponte para o novo patamar.

Faixa B vive achatamento

Apesar de a forte expansão da classe C ser um fenômeno mais recente, o achatamento da tradicional classe média brasileira, com renda superior a R$ 3.500, é um fato observado desde o final da década de 90. O que constatamos é um movimento de expulsão da classe média de um patamar mais cômodo, amargando perdas durante vários anos , afirma o pesquisador do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG, Mario Rodarte.

E mesmo com a sinalização, no ano passado, de uma recuperação da renda dessa camada da população, que reúne cerca de 24% dos brasileiros (aproximadamente 45 milhões de pessoas), ela ainda não chegou a patamares de 1996, quando começaram os levantamentos da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) da Região Metropolitana de Belo Horizonte, fonte dos dados para essa comparação. No período de 1999 a 2003, os mais abastados choraram uma perda de 12,6% nos rendimentos, contra uma alta de 3,7% nos ganhos da fatia menos favorecida. De 2004 a 2007, houve recuperação de 21,4%, ante alta de 31,3% da renda dos mais pobres.

Segundo os dados da PED, em outubro de 1996, o rendimento da classe média estava em R$ 2.719, caindo para R$ 2.367 no mesmo mês de 2007, mas que chegou a atingir R$ 1.950 em outubro de 2003.

O administrador Ricardo Francisco Rotsen de Melo, 46 anos, desempregado há três, tem a percepção de que, para a classe média classificada na faixa B, as coisas ficaram sem grandes alterações nos últimos anos. Melhorou para o povo, que está comprando mais , compara Melo. Estou medindo o fubá e a água para fazer o angu , diz Melo, que vive de rendas de aluguéis.

Fernando Gaiger, pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), concorda que o andar de cima da classe média, correspondente aos 70% a 90% mais ricos, não se beneficiou da melhora da economia. Essa camada, pondera, amargou com o congelamento da tabela do Imposto de Renda (IR) por longo período e com o aumento da carga tributária, além de pressões no orçamento doméstico provocadas por despesas com educação.

Classe deve dobrar até 2015

A ampliação da classe média brasileira nos últimos anos está em sintonia com estudo divulgado pelo banco Goldman Sachs em meados de 2007, apontando que esta camada da população deve dobrar no Brasil e na Rússia até 2015. Para o Goldman Sachs, entram na classificação de classe média pessoas com renda de mais de US$ 3 mil por ano (R$ 5.271), o que corresponde a R$ 439 por mês. Em uma família de quatro pessoas, isto representa uma renda familiar de pouco mais de R$ 1.600 por mês, bem próxima das novas definições de classes econômicas adotadas no Brasil.

O crescimento da classe média previsto pelo banco para o Brasil e Rússia fica bem aquém das projeções da instituição para a China e Índia, atuais locomotivas do crescimento mundial, apesar das ameaças de recessão que vêm dos Estados Unidos, maior economia do planeta. Na China, a classe média deverá se multiplicar por dez, enquanto na Índia esta progressão será de 14 vezes.

Para o banco, que cunhou a expressão Brics para designar o grupo de países emergentes representado por Brasil, Rússia, Índia e China, haverá aumento exponencial da classe média neste bloco nos próximos anos, com acréscimo de 2 bilhões de pessoas com renda anual superior a US$ 3 mil em 20 anos. Para fazer frente à demanda que virá do enriquecimento desta camada da população, o Goldman Sachs recomenda que as multinacionais redefinam prioridades.

Atualmente, a população com renda abaixo de US$ 2 por dia totaliza 2 bilhões de pessoas em todo o planeta. Os consumidores médios , com renda anual superior a US$ 3 mil, não passam de 200 milhões nos países emergentes.

O crescimento da classe média nos países emergentes é acompanhado de evolução similar na área empresarial. O Goldman Sachs aponta que, em 1991, 55% das 20 maiores empresas do setor energético global eram americanas, enquanto as européias eram 45%. Hoje, 35% destas são de países emergentes, igual número da Europa e 30% dos Estados Unidos.

 

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