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Cresce a procura da Classe C por crédito educativo no país

Valor Econômico, 5.setembro.2008

Ideal InvestAs estudantes Thaís Macedo* e Tatiana dos Santos* não se conhecem mas caminhavam para o mesmo destino: nunca cursar uma universidade. Sem recursos para bancar uma instituição privada, iam repetir a mesma história dos pais - que tiveram de encerrar a carreira estudantil no nível médio. Ambas foram salvas pelo crédito educativo, ferramenta de financiamento para cursos de graduação. Segundo a Caixa, operadora de um programa de crédito criado pelo governo federal, foram contratados quase 50 mil financiamentos estudantis em 2007 e a expectativa de aumento no número de alunos atendidos em 2008 é de 100%.

Thaís deve se formar em psicologia no final de 2012. Estudante da universidade paulista Anhembi Morumbi, onde as mensalidades variam de R$ 580 a R$ 3,7 mil, vai ser a primeira da família a trazer um diploma para casa. "Sem o crédito educativo, era impossível pagar as aulas", diz.

Com o crédito educativo, Thaís Macedo quita o valor relativo ao semestre da faculdade em 12 vezes, pagando 1% de juros

A universitária faz estágio em uma multinacional do setor de seguros e o que recebe é insuficiente para quitar a mensalidade da faculdade, de R$ 856. Optou pelo financiamento e hoje paga o valor do semestre em 12 vezes, com juros de 1%.

Já Tatiana dos Santos, que cursa enfermagem na Faesa, em Vitória (ES), e deve se graduar em três anos, só viu o sonho do canudo ficar mais próximo quando leu sobre o crédito educativo em uma matéria de jornal. Promotora de vendas de uma linha de cosméticos, também não tinha como bancar parcelas de R$ 600. Usou o pai como fiador na operação e hoje paga, por mês, pouco mais da metade do valor cheio. "Foi mais fácil do que eu pensava."

Ideal Invest

As duas alunas engrossam uma multidão de estudantes que, cada vez mais, conseguem freqüentar os campi graças ao crédito estudantil. Segundo uma pesquisa realizada pela Ideal Invest, empresa especializada em crédito universitário privado, o número de alunos cadastrados no PraValer, programa de financiamento criado pela companhia, passou de 10,3 mil estudantes em 2007 para 107,7 mil alunos em 2008. "Esperamos ter mais de 300 mil inscritos em 2009, sendo 220 mil somente durante o vestibular de verão", diz Oliver Mizne, CEO da Ideal Invest.

O PraValer está disponível em 113 universidades que oferecem 5,9 mil cursos em 356 campi de 144 municípios do Brasil. Na prática, permite ao aluno pagar pouco mais da metade da mensalidade durante o curso e dobrar o tempo de pagamento da graduação. O curso de administração de empresas na Anhembi Morumbi, por exemplo, com parcelas de R$ 966, sairia pelo PraValer por R$ 487,90.

Outra vantagem do programa é a possibilidade de pleitear o crédito antes do vestibular. "O aluno escolhe o curso que gostaria de fazer e saberá se o crédito foi aprovado antes de fazer as provas."

Segundo levantamento feito pela Ideal Invest, 43,6% dos alunos que buscam o financiamento pertencem à classe C e integram famílias com renda per capita de até 1,8 salários mínimos. A maioria recorre ao crédito para financiar mensalidades entre R$ 600 e R$ 1 mil. O estudo também mostrou que 63% dos alunos que pedem ajuda financeira trabalham e que 78% do total, caso terminem a formação, serão os primeiros de suas famílias a freqüentar uma universidade.

Para Jacques Schwartzman, diretor do centro de estudos sobre ensino superior da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que desenvolve uma pesquisa sobre o crédito educativo no Brasil, o setor vive um bom momento. "As fontes fornecedoras de crédito educativo aumentaram com a entrada de empresas especializadas e dos bancos comerciais, antes resistentes a esse tipo de operação."

Outra mudança que permitiu a presença de mais estudantes nos corredores universitários foi o "casamento" ocorrido entre o Programa de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade para Todos (ProUni), do governo federal. Agora, os beneficiados com bolsas parciais do ProUni têm prioridade para receber o crédito do Fies, desde que estejam em cursos bem cotados pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), e dentro das cinco áreas prioritárias do programa: licenciaturas exatas, engenharias, geologia, medicina e cursos tecnológicos. Para este público, já foram realizadas mais de 4,6 mil contratações.

"Como os alunos do ProUni têm de apresentar renda familiar máxima de três salários mínimos per capita, o resultado é a maior inserção de alunos carentes nas universidades", diz Schwartzman. Segundo o especialista, análises de consultorias sobre a área educacional estimam que em 2010, 53% dos alunos universitários no Brasil serão das classes C e D.

De acordo com Mauro Xavier, gerente nacional de fundos e seguros sociais da Caixa, foram contratados quase 50 mil financiamentos pelo Fies em 2007 e a expectativa de aumento no número de estudantes atendidos em 2008 é de 100%.

Criado em 1999, o Fies é operado pela Caixa e substituiu o Programa de Crédito Educativo (Creduc). Já beneficiou mais de 500 mil alunos e tem 1,4 mil instituições credenciadas. "Entre os fundos administrados pela Caixa e vinculados à educação, o Fies, com um patrimônio aproximado de R$ 6 bilhões, é o maior", diz Xavier.

Desde 2008, o Fies passou a oferecer financiamento de 100% dos valores das mensalidades a alunos de graduação e pós-graduação de instituições particulares. Antes, o montante estava limitado a 70% e a iniciativa era restrita a estudantes de graduação. O fundo ainda dá seis meses de carência, contados a partir da data de conclusão do curso, para que o beneficiado comece a quitar o crédito. "Nos próximos meses, espera-se um aumento significativo na demanda por crédito e, ao mesmo tempo, uma elevação dos volumes máximos de financiamento aceitos pelas instituições de ensino", diz Xavier.

Em Porto Alegre (RS), a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com 22,5 mil alunos e 53 cursos de graduação, trabalha com crédito educativo desde o início dos anos 1990. A mensalidade média dos cursos varia de R$ 600 a R$ 1 mil. "Do total de alunos, mais de 3% usa o crédito educativo", afirma o gerente financeiro Luiz Felipe Vallandro. Mas tudo indica que esse percentual deve engordar.

Pelo Fies, houve um aumento de 60% do número de alunos financiados entre 2006 e 2007. E, a partir de 2008, a universidade também abraçou programas de crédito privados, como o PraValer, da Ideal Invest.

Para Fabio Ribeiro, CFO da Anhembi Morumbi, que tem mais de 20 mil alunos, mesmo com o subsídio dos créditos educativos, o curso superior privado ainda apresenta valores salgados para estudantes menos favorecidos. "Além do vestibular funcionar como um filtro para esses alunos, há despesas com livros, transporte e refeições". A universidade paulista tem 65 cursos de graduação e opera com crédito educativo desde 2003 - cerca de 10% dos graduandos estudam com a ajuda do benefício.

Até instituições que nunca se renderam ao parcelamento estudantil adotam a idéia. É o caso do Mackenzie, em São Paulo, com 31 mil alunos de graduação em 30 cursos: vai estrear a modalidade este ano. "A expectativa é que 25% dos candidatos ao vestibular 2008-2009 já estejam pré-aprovados no financiamento", afirma Solano Portela, diretor de planejamento e finanças do Mackenzie. O valor médio das mensalidades dos cursos na instituição é de R$ 750.

Por Jacilio Saraiva

* As estudantes citadas fazem parte do Crédito PRAVALER.

 

 

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