Ideal Invest, 29.setembro.2008
Análise de contratos de financiamento mostra que, com dinheiro em mãos, aluno prefere pagar por um curso mais caro.
A ampliação do acesso ao crédito estudantil está provocando uma mudança lenta, mas profunda, no perfil dos cursos escolhidos por alunos de menor renda. De acordo com análise realizada por uma empresa especializada em financiamento estudantil, os alunos que obtêm crédito passam a procurar cursos com mensalidades mais altas, indicando que a preferência de escolha é baseada ou em carreiras mais caras – como medicina ou engenharia – ou em instituições de ensino superior que primam pela qualidade dos cursos oferecidos.
O estudo da Ideal Invest, que oferece o crédito PRAVALER, mostra que a maioria – 43,6% – dos alunos cadastrados em 2008 escolheu cursos com mensalidades entre R$ 600 e R$ 1mil. A faixa entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil atrai 5,1% dos bolsistas e cursos acima de R$ 1,5 mil foram escolhidos por 4,2% (veja gráfico). “Na hora em que o dinheiro para pagar o curso não for mais o importante, o aluno vai escolher o de melhor qualidade”, defende Oliver Mizne, sócio da empresa. A base da análise são os 107 mil alunos do ensino superior que tomaram crédito da empresa nos processos seletivos de julho de 2008.
O estudo também mostra que a média de mensalidade do aluno com financiamento é 27% maior que a do aluno que se vale apenas do próprio bolso. De uma média de R$ 570, a mensalidade passa para R$ 725. “Para esse perfil de aluno, a renda não possibilitaria obter bolsa integral do ProUni. Não é um aluno rico, mas escolhe um curso de R$ 725, bem acima do que sua renda permitiria pagar”, afirma Mizne. A principal bolsa governamental, o Programa Universidade para Todos (ProUni), ofertou cerca de 106 mil bolsas no primeiro semestre de 2008. Já o Programa de Financiamento Estudantil (Fies), que agora permite financiamento integral, teve pouco mais de 70 mil estudantes beneficiados em todo o ano passado.

Com o auxílio de bolsas governamentais e particulares, incluindo aquelas oferecidas pelas próprias instituições, o número de estudantes do ensino superior cujas famílias têm renda de até três salários mínimos está em crescimento. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) analisados pelo pesquisador Simon Schwartzman, houve um aumento de 49% nas matrículas dessa faixa de alunos entre 2004 e 2006, passando de 10,1% para 15,1% do total. Ao mesmo tempo, a população no mesmo estrato social cresceu apenas 8%.
Os números animam o mercado. Como o crédito da Ideal Invest teve 107 mil inscritos nos processos seletivos do meio de ano (contra pouco mais de 10 mil em 2007), Mizne acredita que o financiamento por empresas particulares está se tornando um grande campo a ser explorado – inclusive pelos bancos. “Historicamente, há um grupo de alunos que não ingressou nas mais barata, mas também não tinha dinheiro e preferiu esperar quando surgisse o crédito. Só quando entrarem os bancos haverá uma grande expansão desse público”, analisa. De acordo com o empresário, algumas parcerias de bancos com instituições já estão sendo estudadas, enquanto outras instituições financeiras, segundo ele, planejam lançar em breve no mercado linhas específicas para os estudantes universitários. “O mercado vai se aquecer muito”, aposta. Para 2009, a Ideal Invest planeja fechar 300 mil contratos durante o ano.
Além de refletir uma escolha mais cuidadosa do ponto de vista da qualidade do curso, Mizne afirma que o pré-universitário com crédito em mãos está procurando também ingressar em carreiras até então “impensáveis” para alunos de baixa renda, como medicina. Entre os dez cursos mais procurados por alunos que contrataram o financiamento, segundo uma análise preliminar, estão também outros cursos que demandam maior investimento, como engenharia de produção e fisioterapia. Em 2007, dominavam os cursos mais populares – direito e administração, por exemplo – e outros mais baratos, com ciências contábeis e pedagogia. A tendência é que carreiras até então “elitistas” passem a ter maior presença entre as mais procuradas.
Mesmo a procura por “qualidade” envolve uma série de itens percebidos pela empresa, como instalações, conceitos de avaliação e outros fatores externos, como localização ou proximidade à residência do aluno e a estações de metrô. “Qualidade é um conceito muito amplo, mas definir o que é qualidade cabe à própria instituição”, diz Mizne.