Revista Exame, 31.dezembro.2008
Com a reestruturação promovida por investidores e a oferta de financiamento a estudantes, o Ensino Superior no Brasil entra numa fase de expansão
Por Estudo Exame de Educação / Raquel Grisotto
A falta de dinheiro quase acabou com a vida universitária de Alexandre Salgado de Nóbrega, de 26 anos. “Foram tantas investidas frustradas que, por pouco, não abandonei o sonho de ser médico”, diz ele, que tentou por três anos passar no vestibular de medicina de uma universidade pública brasileira, sem sucesso. Morador da Vila Guilherme, bairro de classe média da zona norte de São Paulo, Nóbrega nem mesmo fazia as provas para o vestibular de faculdades privadas, já que a renda de sua família nunca foi suficiente para pagar as mensalidades dos cursos de medicina.
No começo deste ano, Nóbrega descobriu a possibilidade de financiar os estudos e, finalmente, conseguiu se matricular. Ingressou na primeira turma de medicina da Anhembi Morumbi, universidade privada de São Paulo. Para pagar a mensalidade de 3.750 reais, recorreu à Ideal Invest, empresa que tem entre os sócios o fundo de investimento Gávea, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. “Se não fosse assim, mais uma vez teria de desistir”, diz. Pela primeira vez, a família de Nóbrega – cujo pai é dono de uma banca de frutas no Mercado Municipal – poderá ter um membro com formação universitária, um traço de mobilidade social que em mudando o perfil de outros milhares de famílias brasileiras e que, em larga escala, poderá transformar a força de trabalho do país. No caso de Nóbrega, o acesso ao crédito foi determinante para que ele tivesse a oportunidade de ascender na pirâmide educacional e social. Pelo acordo feito com a Ideal Invest, ele pagará 2.115 reais por mês (pouco mais da metade do valor integral da mensalidade) por um período equivalente a duas vezes a duração de sua graduação em medicina. Vai terminar de pagar o curso, que tem duração de seis anos, apenas em 2020. “Até lá, já terei um bom emprego”, afirma.
Por trás da história de Nóbrega está mais fenômeno recente da economia brasileira: a transformação do ensino privado, especialmente de nível superior (graduação e pós-graduação) em um negócio que não pára de crescer. Esse movimento se dá ao mesmo tempo com a entrada de investidores financeiros no setor, ampliando a competição e modernizando a estrutura dos grupos de ensino, e com a oferta de custeio das mensalidades para multiplicar o número de estudantes. Até recentemente, o crédito educativo contava apenas com uma linha do governo, a Fies, operada pela Caixa Econômica Federal. Pioneira na oferta de crédito privado para graduação, a Ideal Invest, em apenas dois anos, tem hoje em sua carteira 27 000 estudantes de 126 universidades brasileiras. “O jovem não poderá mais atribuir à sociedade ou ao Estado a culpa por não estudar”, diz Oliver Mizne, sócio da empresa.
No mercado de educação desde 2001, fazendo antecipação de fluxo de caixa a faculdades, a Ideal já investiu no setor 430 milhões de reais. Outros 70 milhões estão previstos até março de 2009 – e pelo menos metade terá como destino o atendimento aos estudantes. Em tempo de crédito escasso, a iniciativa ganha mais relevância e, felizmente para os candidatos a universitários, está sendo seguida por outros grupos. Os bancos Santander e Unibanco, que atuavam apenas com crédito para cursos de pós-graduação (de duração mais curta)m também passaram a oferecer financiamento para a graduação. A expectativa é de que até 2015 o financiamento privado para graduação alcance 30% dos estudantes no país. Nos Estados Unidos, 85% dos alunos de escolas privadas têm – ou pelo menos tinham, até antes da crise financeira – crédito para estudar.
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