Revista Ensino Superior, 5.janeiro.2009
Mesmo cautelosos com a crise financeira internacional, grupos educacionais brasileiros mantêm cronograma de expansão para o próximo ano e ainda decretam que 2009 será o momento de entrar no ensino a distância
Rodolfo C. Bonventti
Os resultados extremamente positivos alcançados pelo mercado educacional em 2008 animaram os grandes grupos do setor, que já fazem uma projeção otimista para o ano que vem. A crise financeira internacional é fator de preocupação, mas os diretores argumentam que quem fez a "lição de casa" neste ano não deve sair abalado pelas variações econômicas. A principal aposta para 2009 será o ensino a distância, que passará a ser alvo de investimentos de alguns desses grupos.
A direção do Grupo Veris Educacional, que registrou crescimento de 20% neste ano com relação ao ano anterior, prevê que 2009 será um ano com crescimento menor para o setor, mas mesmo assim ainda muito positivo. A empresa vai manter o planejamento de investimentos. "Nossa expectativa é crescer em torno de 20%. Para isso, vamos priorizar o crescimento orgânico, com o investimento nos dois novos campi (Ibmec Minas Gerais e IBTA Campinas) a serem inaugurados no primeiro semestre, e para o qual estão sendo aplicados mais de R$ 20 milhões, além de apresentarmos ao mercado nossa oferta de ensino a distância, com o qual esperamos fechar o próximo ano com 20 a 30 pólos em todo o país, um investimento de R$ 2 milhões", explica Eduardo Wurzmann, presidente do Grupo Veris Educacional.
Ter feito a lição de casa o ano todo por meio de uma gestão profissionalizada com foco em resultados e governança corporativa representa para Wurzmann encarar 2009 com muito mais tranqüilidade. "Isso nos possibilita atuar com flexibilidade no próximo ano, já que controlar custos e preservar o caixa foi nosso foco em 2008. Nosso alvo serão os investimentos estratégicos sem perder eficiência e qualidade. O processo de consolidação do setor deve continuar em 2009, porém em ritmo menos acelerado. Como as fontes de financiamento para as instituições, como o capital de investidores, devem escassear, quem fez a lição de casa direitinho e tem caixa pode, inclusive, ter grandes negócios à vista, já que a saída para muitos grupos ou empresas que não estejam bem financeiramente será a venda, a fusão ou ainda a troca de comando para uma outra companhia assumir a operação", avalia.
As metas do Grupo Iuni Educacional para 2009 também são arrojadas: há um projeto de expansão definido até 2013 que tem como meta a aquisição de mais três unidades no decorrer do ano, com recursos originados do próprio caixa da instituição e uma pequena parte vinda de operação de crédito já estruturada com bancos comerciais, o que deve representar mais 15 mil alunos para o 9º maior grupo privado de ensino superior no país, segundo a Hoper Consultoria. "Como temos ainda um mercado muito fragmentado, com mais de duas mil instituições de ensino em todo o país e há uma crise internacional no circuito, o nosso segmento deve registrar um crescimento menor em 2009, mas os grupos que souberem utilizar a crise como uma oportunidade vão crescer até mais do que estão prevendo hoje. Com certeza, nosso canal de crescimento não vai mudar", sentencia Rodrigo Galindo, diretor-presidente do Grupo.
O Iuni adquiriu nove unidades em 2008, em sete cidades do Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil, regiões que têm prioridade nos investimentos do Grupo desde a sua fundação.
"Hoje, a diferença no nosso segmento está baseada na gestão e capacidade de aquisição e cada vez mais o modelo acadêmico e a marca vão ser os grandes diferenciais no mercado", justifica Galindo, que confirma que todos os investimentos do Grupo em 2009 também estarão voltados para as regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte, que, segundo ele, "ainda são deficitárias de vagas em um ensino superior de qualidade".
O Grupo Kroton Educacional, que registrou crescimento de mais de 150% no número de alunos matriculados em 2008, não descarta aquisições de novas unidades no ano que vem. Segundo a professora Alícia Figueiró, vice-presidente executiva do grupo, a ordem para o próximo ano é "reavaliar parâmetros de novas aquisições, mas continuar de olho nas boas oportunidades do mercado".
A Kroton também pretende entrar de maneira cautelosa no ensino a distância, com cursos superiores de tecnologia, e aguarda vários processos de crescimento orgânico que já estão no Ministério da Educação. "Vamos ficar de olho nas boas oportunidades que o mercado deve oferecer em 2009, mas devemos ter um ano muito positivo também", sentencia a vice-presidente executiva da Kroton.
O aumento da oferta de cursos a distância, a ampliação de pólos no interior, a implantação dos novos índices de qualidade pelo Ministério da Educação, a expansão das universidades que abriram capital e os processos de aquisição, fusão e incorporação das instituições de ensino foram os eventos que marcaram 2008, na opinião da Estácio de Sá. "O ano foi extremamente positivo para a universidade, tanto no âmbito acadêmico, quanto no financeiro, com o crescimento em número de alunos, receita e lucro", diz o diretor de ensino da Universidade Estácio de Sá, Rubens Vasconcelos. A Estácio fez 12 aquisições em 2008, sendo sete em São Paulo, três no Nordeste, uma no Amapá e outra no Paraguai, iniciando o processo de ida das instituições de ensino superior brasileiras para o exterior.
Para Vasconcelos, a crise financeira internacional não deverá abater o setor em 2009. "Existe uma preocupação natural com a crise em função da globalização. Porém, o Brasil está em posição privilegiada. Enquanto no mercado americano a crise causa recessão, aqui se manifesta com um crescimento menos acelerado da economia. No setor de educação, mesmo com este crescimento menor, a procura por qualificação profissional continua, uma vez que o déficit educacional brasileiro ainda é alto", acredita Vasconcelos.
Sem revelar as perspectivas de ações de mercado para o ano que vem, a Estácio diz que o planejamento do grupo para 2009 é "proporcionar excelência na prestação de serviços de educação para ensejar formação de qualidade e maior empregabilidade a nossos alunos".
A Laureate International Universities, a maior rede mundial de ensino privado do Brasil, presente em 18 países, também não comenta perspectivas ou planos para o próximo ano. Em 2008, a rede adquiriu duas instituições no Brasil: a Escola Superior de Administração, Direito e Economia (Esade), de Porto Alegre, e o Centro Universitário do Norte (Uninorte), em Manaus.
Também para o Grupo Cruzeiro do Sul, 2008, foi um ano bastante marcante, com um crescimento em termos gerais de mais de 75% em relação a 2007. "Esse crescimento é originário das aquisições que realizamos em 2008 do Centro Universitário Módulo, em Caraguatatuba, e do Centro Universitário do Distrito Federal, em Brasília, e também da inauguração de mais um campus na cidade de São Paulo, o de Pinheiros", explica Fábio Ferreira Figueiredo, diretor-executivo do Grupo.
Com as aquisições, o Grupo Cruzeiro do Sul encerra 2008 com 33 mil alunos entre graduação e pós-graduação. "Este ano foi muito positivo para quem tinha dinheiro em caixa e fez a lição de casa corretamente o ano todo, mas não foi um ano fácil para as pequenas instituições de ensino, aquelas com até dois mil alunos, localizadas nos grandes centros do país", define Fábio.
Expectativas e metas alcançadas em 2008, o Grupo deve ter uma postura cautelosa em 2009. "As perspectivas para o próximo ano não estão ainda muito claras. Nossa expectativa é que vamos ter uma captação de novos alunos no princípio do ano muito parecida com a deste ano, mesmo oferecendo mais cursos em mais regiões", analisa Fábio.
O Grupo também vai entrar na modalidade de ensino a distância em 2009, na área de pós-graduação. Para Fábio, os maiores efeitos da crise mundial devem atingir o setor no decorrer de março ou abril. Por isso mesmo, o grupo está em regime de espera e parou, pelo menos por enquanto, as negociações que vinha mantendo para novas aquisições. "O nosso plano continua, apenas está em stand by até que a gente tenha uma idéia mais clara de qual foi o tamanho do impacto dessa crise no nosso segmento", explica Fábio.
Embora o executivo do Grupo Cruzeiro do Sul espere um crescimento orgânico de 10% a 15% no volume de alunos nos campi recém-adquiridos de Brasília e Caraguatatuba, ele não acredita que o setor cresça muito em 2009 e muito menos espera que o governo federal ou o Ministério da Educação adotem qualquer medida econômica que possa ajudar os estudantes que estiverem com dificuldades para honrar as mensalidades, como, por exemplo, lançar uma linha de crédito especial para quem está no curso superior.
"Acho que o crédito educacional é um bom negócio para os nossos estudantes, mas ele não faz parte da cultura do universitário brasileiro. Os nossos alunos não fazem dívida para estudar. Eles financiam carros, móveis, eletroeletrônicos, mas não a sua formação. Eles preferem uma bolsa de estudos nem que ela seja só de 10% ou 20% a financiar 50% do seu curso", avalia.
Realmente, não há, por enquanto, discussões no Ministério da Educação no sentido de prever facilitações ao crédito estudantil em decorrência de um eventual aprofundamento da crise.
Por outro lado, o ministro da Educação, Fernando Haddad, declarou publicamente que a crise não afetará os investimentos na educação brasileira na área pública. Segundo Haddad, o governo pretende manter os investimentos previstos até 2010 no plano plurianual. Para a rede federal de ensino superior, também deverão ser mantidos os investimentos de mais de R$ 2 bilhões no âmbito do Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni).
Quem se movimenta para aumentar a oferta de crédito universitário é o setor privado. A Ideal Invest, empresa responsável pelo maior programa de crédito universitário privado do país, faz previsões de aumentar em mais R$ 70 milhões os seus investimentos em educação até meados do primeiro semestre de 2009.
"A Ideal se capitalizou para garantir uma disponibilidade de recursos que possa atender a todas as universidades e aos clientes do crédito universitário. Sabemos que o momento é difícil e que poderemos ter um aumento de inadimplência, mas estamos certos também de que vamos crescer. Um crescimento com prudência, em um mercado de mais de um milhão de alunos que podem contar com a nossa opção de crédito universitário", explica Oliver Mizne, diretor da Ideal Invest.
Segundo os dados mais recentes, a empresa mantém parceria com mais de 125 instituições de ensino privado em 14 Estados e oferece opções de financiamento para mais de seis mil cursos. "Hoje já cobrimos 30% do mercado de ensino superior privado e em 2008 registramos um número dez vezes maior de alunos interessados no nosso programa de crédito, que é o Pravaler, em relação a 2007, o que nos motiva a investir ainda mais nele mesmo com a atual crise econômica", projeta Oliver, com um otimismo que parece será a tônica para todo o setor de educação superior brasileira no ano que vem.